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Pó de Sonho
 


mas a anulação não é uma forma de redenção?



Escrito por rdionisio às 17h00
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LLAMAME DE TERCO

O mundo está idiotizado. Ou, o que é ainda provável, estou ficando chato, velho, ranzinza e míope. Sim, me sinto deslocado no meio das opiniões gerais. Para sobreviver, prefiro acreditar em Nelson Rodrigues. Toda unanimidade é burra. É uma forma de não me entregar. Enfim, o fato: gente imbecil escreve sobre cultura ou pessoas sem cultura lêem cadernos culturais. Pior, mais crível, jornalistas despreparados produzem seguindo a máxima da profissão (escreva para sua avó, ela tem de entender seu texto). Esquecem ser essa lição referente à forma, não ao conteúdo. A comparação fácil me incomoda, mesmo.

Há dois finais de semana assisti Vicky Cristina Barcelona e Rocknrolla. O primeiro, segundo a dita crítica, é Woody Allen vestido de Almodóvar; o segundo, mais uma imitação de Tarantino. Duas bobagens ímpares de se dizer. Barcelona traz Woody Allen de “safra nova”, plantada desde Poderosa Afrodite e com frutos mais claros em Scoop e Match Point. Há quem goste (como eu), há quem diga serem obras menores do diretor. Mas, como disse, o fato é: são filmes dele, do bom e velho Woody, ponto. “Ah, mas tem Espanha, Bardem, Penélope Cruz...”. Sim, e daí? Não tem as cores de Almodóvar, a temática, o melodrama. As mulheres em destaque de Amodóvar são sempre uma imagem idealizada de mãe (bela ou histérica), não a próxima conquista a ser levada para a cama (Scarlett Johansson nunca vai ficar tão linda quanto sob o olhar de Woody, ela transborda a tela).

Hitchcock dizia que o som iria transformar imbecis em cineastas (citei já isto, salvo engano, na crítica a Ensaio Sobre a Cegueira, aqui neste blog). Verdadeiros realizadores conseguem contar sua história na tela sem usar palavras (Ettore Scola relata 50 anos de França em um salão, no longa O Baile, sem uma fala; trata-se de um filme de 1983). A indústria cultural, o individualismo, a necessidade de ter opinião, o “discursvismo”, a falta de conteúdo tornaram o mundo chato e a crítica cultural vazia. Ou seja, analisar uma obra dando menos importância a como ela é contada (luz, enquadramento, direção de atores, escolha de cor, de tempo) e mais sobre o que ela fala ou quais atores traz é reduzir o cinema a uma arte menor. É atrair à sala escura gente que fala durante toda a sessão e come feito porco.

Guy Ritchie e Tarantino se divertem acusando um ao outro e trocando farpas na imprensa. Ambos bebem de referências parecidas, apresentam discursos paralelos. Mas entrar nessa pilha é bobagem. Ambos falam de submundo, ambos usam violência, mas são totalmente diferentes na forma, na maneira de levar seus personagens, nas cores, nos usos e costumes da tela.

Pegue a imagem de Mia Wallace tendo uma overdose em Pulp Fiction e compare com a de Johnny Quid em espasmos por causa de crack em Rocknrolla. Depois me diga se os dois diretores são iguais.

Se for para ser “conteudista”, Scorsese e Tarantino são a mesma coisa. Almodóvar e Bigas Luna (o verdadeiro descobridor de Penélope Cruz e Javier Bardem, em As Idades de Lulu e Jamón, Jamón), também. Não estou discutindo quem é melhor. Mas o fato irritante de reduzir tudo para simplificar e empurrar na garganta das pessoas. Engole quem quer, a quem interessar possa. Já sobrou até para o maravilhoso coreano Oldboy, vencedor de Cannes no ano no qual Tarantino foi presidente do júri. Se falou mais do cineasta nerd norte-americano que do filme. E, sim, Oldboy tem violência estilizada (pouca, na minha opinião), mas é muito mais Sam Peckinpah. E tem uma sutileza de imagem nunca alcançada nem em sonho por Tarantino. A cena da jovem Mi-do com as asas de anjo nas costas corta o coração mais duro. E essa seqüência curta não tem falas, é imagem, é cinema.

Como diz o título desta coluna, me chame de idiota. Há quem goste.

CURTAS

Ouça isto: A trilha sonora de Rocknrolla em http://br.youtube.com/user/RocknRollaOST

E isto: Salomão Schvartzman sobre Vicky Cristina Barcelona, melhor que qualquer coisa a qual eu seria capaz de produzir http://bandnewsfm.band.com.br/pop_audio.asp?MMS=http://www.bandnewsfm.com.br/audio/SALOMAO_1811.mp3&ID=87149#



Escrito por rdionisio às 16h41
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Queria que este texto me furasse os olhos, tímpanos, cobrisse minha pele de chagas. Apenas restasse esta voz, como um engasgo, um vomito, escarro de catarro e sangue a me comunicar ao mundo. Verso martelo, palavra marreta, a quebrar meus joelhos e cotovelos e deixar inerte, no chão, sem sequer a vã possibilidade do rastejar. E parado, quieto, calado, sentir todo o ódio e rancor que causei ao dizer eu te amo e depois voltar atrás. Queria um verso com a lembrança das vezes nas quais meu apartamento é frio e solitário como uma lápide, e meus pesadelos atormentam por toda a noite. Desejo um substantivo a acelerar o câncer no meu fígado, um verbo ser para o fim anunciado. Busco o adjetivo a dar coragem de me atirar na frente do Estação Santo Amaro. Procuro estar quieto, sozinho, sem saída. Um espaço a me igualar aos desgraçados, os sem par, sem pátria. Pois todo som de caminho possível é só mais um desespero de desilusão, inação e promessa não cumprida. Queria um texto que me tirasse as esperanças, pois ter sobre mim o peso desta palavra é o que mais assusta hoje. Que as cartilhas que ensinam sobre o dom de acreditar queimassem, pois eu fui seu leitor, e hoje sobra apenas miséria na minha alma. Quero descansar, um livro com fim. E fim.



Escrito por rdionisio às 10h27
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De volta

Outro dia pensei em uma quadrinha.... era algo que achei realmente genal. Quatro frases, terminava com algo na linha "sob o céu, sol"... Não anotei, se perdeu para nunca mais...

Enfim, se alguém ainda vem aqui, estou de volta.



Escrito por rdionisio às 18h44
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Ana e Pedro

O gosto de sangue e os dentes parecendo balançar dentro da boca lembraram de alguma forma que ele estava vivo. Pedro apoiou as palmas das mãos no cimento sujo da calçada e tentou levantar, mas sentiu o bico da bota bater contra seu peito e teve certeza que mais alguma costela tinha ido para o espaço. Apesar disso, o impacto do chute deu a ele impulso para, cambaleante, ficar em pé e virar de frente para o agressor. Colocou a mão direita retalhada diante do rosto, para tentar se proteger, enquanto a esquerda tateava a parede e procurava, ao mesmo tempo, dar apoio e buscar algo, um cabo de vassoura, uma pedra solta, para atacar de volta. Confuso, sentiu um gancho de esquerda no fígado. Dobrou ao meio mais uma vez e a última coisa que viu antes de ir ao chão de novo foi crescer, diante de seu rosto, um joelho vestido em um macacão emborrachado de motoqueiro. Tinha um estranho sorriso no rosto.

Pedro nunca havia entendido o que vira em Ana. Era mais uma. Um corpo, algo passando diante dos olhos ávidos dele e de tantos outros. Mas uma espécie de desejo animal subia de sua barriga, tomava o peito e fazia os ouvidos quase explodirem com o som da circulação nas têmporas. Tentava mensurar e nomear aquilo enquanto pensava em maneiras de se aproximar dela, sem nunca achar algo que considerasse conveniente. Uma vez, em uma abordagem idiota de mesa de bar, ao notar a aliança na mão esquerda, trocou as primeiras palavras.

- Você é casada?
- De véu, grinalda e igreja!

O tom agressivo pediu um gole de cerveja, mais nenhuma palavra pelo resto da noite e um certo sentimento de frustração no caminho para casa.

Pedro não lembrava agora direito como começou, só sentia o ombro direito em chamas. Sabia que estava saído com os amigos para o boteco, não ouviu ou viu nada, só sentiu uma pancada com algo pesado e metálico nas costas. Imaginava que seu braço não desprendeu do resto do corpo por sorte, ou ao menos era essa a sensação. Cambaleou, se virou e teve tempo apenas de desviar do capacete arremessado em sua direção. Lembrou de ter feito algo parecido há alguns anos, mas era um Carnaval, a cidade, Recife, e o objeto atirado contra seu rosto, uma garrafa de cerveja. Daquela vez, deixou por isso, até porque eram cinco ou seis caras, um deles havia levado seu relógio. Agora não tinha como fugir, e sabia bem qual o motivo daquilo tudo, já esperava algo assim.

Ana nunca havia reparado em Pedro. E ele fazia questão, para uma certa irritação dela, de lembrar disso sempre que podia. Ela não lembrava da história da aliança, de ele ter tentado adicioná-la no Orkut, de uma maneira geral da existência do rapaz moreno, de óculos e cara séria. Por um bom tempo Pedro também fora apenas uma diversão, mais um galãzinho babaca com cantadas previsíveis e uma insistência normal de quem quer algo além daquilo que declara. Não foi o primeiro, nem seria o último. E havia sempre uma certa graça naquele jogo de dar esperanças, dar corda, oferecer ar, só para, no limite da sanidade alheia, apertar o nó que ata o pescoço do futuro afogado a uma pedra de 100 quilos de desprezo.

Em sua mente, Pedro já havia decorado todos os contra-golpes: desviar da direita, aplicar uma cotovelada seguida por uma cabeçada. Ver o sangue jorrar do corte no nariz do adversário, seus olhos de terror. Só esqueceu que há pelo menos 16 anos não brigava de soco com ninguém, há 14 fumava um maço de cigarros por dia, há dez não fazia nenhum exercício físico regular. Os movimentos eram lentos, pesados, os socos não atingiram nada além de ar. Enquanto isso sua cabeça foi massacrada primeiro pela esquerda, depois pela direita. Os óculos voaram depois do terceiro golpe (em sua imaginação conseguia tirá-los e preservá-los em um canto de calçada, junto com a mochila e a camisa, agora respingada de vermelho). Sentiu as pernas bambearem ao mesmo tempo em que uma canelada atingiu seu baço, que sem sombra de dúvidas se rompeu. Arqueou pela primeira vez, sentiu o impacto de um antebraço na nuca e foi ao chão.

Estava acostumado a jogos de gato e rato, a pequenas artimanhas de conquista e tinha como uma certa máxima que quem dá corda quer assunto. E munido dessa certeza, Pedro insistia, pela milésima vez, em um esquema que conhecia bem e no qual se sentia mestre. Mas algo lhe dizia haver mudanças de rumo naquela prosa. Os frios na barriga aumentavam, e um tremor descontrolado, quase parksoniano, conhecido apenas dos tempos de adolescência, tomava conta de todo seu corpo quando tomava Ana em seus braços. Penou em se afastar dela, chegou a fazê-lo, a cancelar a partida e decidir perder por WO. Não conseguiu. E se viu um dia, sob uma garoa fina, confessando estar apaixonado. E sabendo que dali não havia mais volta.

A sola da bota se chocou uma, duas, três vezes contra seu rosto, fazendo o crânio ricochetear contra o chão. Conseguiu rolar, agarrar o pé de apoio do agressor e desequilibrá-lo. Moveu-se na ridícula posição de gatinhas, tentando fugir. Pensou por um instante em onde estavam as pessoas que o acompanhavam, se ninguém iria separar, parar com aquilo. Não ouvia nada, só sentia algo viscoso se desprender de dentro de seus ouvidos. E também uma nova solada de bota, agora na altura da bacia, atirando seu peito contra o chão. Dois, três chutes da altura das costelas e um som, vindo de dentro, de ossos partindo. Sorriu, sentindo o gosto de sangue na boca, ao ver o brilho metálico a alguns palmos da sua cabeça e entender porque todos haviam se afastado. Precisava levantar, encontra algo, uma cabo de vassoura, uma pedra solta para se defender.

Ana não sabia dizer quando fora, mas se rendeu, se entregou e transformou a paixão de Pedro em sua também. Conseguiu inventar histórias para si e para o mundo do quanto consigo era diferente, e o quanto aquele homem fechado e promíscuo era um menino trêmulo com ela. Tornaram-se amantes, confidentes, amigos, não exatamente nessa ordem. E também fora de hora ou de script, Ana resolveu viver sua vida ao lado dele. Sim, não iria ser fácil, era jogar toda uma vida fora e começar de novo. Acreditava que valeria a pena. Numa noite quente de domingo, comunicou a decisão em casa, na segunda teria uma viagem de trabalho, e na sexta, ao voltar, queria encontrar a casa vazia de Ugo, seu marido e primeiro namorado. Ele foi compreensivo, como ela esperava que fosse. Sensível, chorou, soluçou a noite toda, pediu para ficar. Irredutível em sua decisão, Ana dormiu tranqüila, certa de ter feito o que devia.

Pedro sorriu por saber que, depois de muito tempo de uma vida sem sal, sem rumo, sem medo de morrer, finalmente havia achado um motivo para tentar continuar respirando. E também por lembrar da reação de Ana a uma de sua piadas fora de hora.

- Seu marido anda armado? Se não, eu resolvo.

Ela não respondeu, ficou séria e puxou outra conversa. Não houve cabo de vassoura ou pedra, existiu outro tombo e o gosto de sangue se misturou ao de lama da calçada. A língua ainda tateou a gengiva, procurando dois dentes que não estavam mais lá. Pedro ouviu algum xingamento o qual não entendeu. Com o canto do olho viu o objeto brilhante se aproximar de sua têmpora direita, ouviu um clique e um estrondo.

Ugo, na verdade se chamava Demóstenes. Escolheu sem gosto o novo nome por apenas ser mais curto. Nascido e criado em uma cidade do interior do Mato Grosso do Sul, cresceu com cavalos, bois e o contato com a terra. Em região de fronteira, ganhava a vida com pequenos bicos, doma de animais e teve de fugir, após matar um homem em uma briga de bar. Havia dormido com a mulher do morto, apenas mais uma das traições que acumularia em sua carreira, com a diferença que desta vez era matar ou morrer. Por isso mudou de nome, por isso escolheu uma cidade da Grande São Paulo onde podia ser mais um. Tentou ser respeitável, freqüentar a igreja, conhecer uma vida nova. Quando viu Ana sabia que encontrara ali seu destino, na menina carola recém-saída da adolescência. Ele, já além dos 20 anos, não viu dificuldade em conquistá-la, em convencê-la, em montar a aparência de uma pessoa respeitável.

Mas ainda sentia falta de quando se parecia mais com bicho que com gente, e a seu modo exercitava isso, em pequenas escapadas, mentiras, no prazer em ser, intimamente, o contrário daquilo que demonstrava ao mundo. Comprou uma moto, e brincava de montaria. Fazia os desejos de Ana, para justificar cada uma de sua falhas de caráter. Dava desculpas sem sentido e fugia o quanto podia das vontade de viagem da mulher para a região na qual crescera. Da antiga vida, não conseguira guardar a cela, da qual Ana o fez se livrar com o argumento de que ocupava muito espaço. Manteve apenas uma bota de montaria, um par de esporas e o velho 38 cromado, única herança deixada por seu pai.


Escrito por rdionisio às 20h13
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Temporal

Aqui ameaça um temporal
Grosso, pesado, daqueles de verão
Eu aprendi que não há nada a fazer quanto a eles
Resta escolher entre estar ou não sob a chuva
Sempre escolhi me molhar
E tenho saudade até da "garoa" paulistana
Quem tem mais de 30 a conheceu, e sabe
Pela intensidade e presença, era um tipo de tempestade
Ao menos para mim, temporal de memórias
Mas em algum lugar, creio, perdi a vontade e a coragem
A água, pingos grossos, dói, parece que vai cortar a pele
Volta e meia procuro um toldo, saio por aí de guarda-chuva
Lembranças, como a da garoa
Saudades, e começa um temporal aqui.

+ escrito em um pedaço velho de papel sob efeito de chuva e final de ano

Escrito por rdionisio às 17h39
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Walter e Adriana

Walter e Adriana se conheceram quase que por acaso. Ele, cobrador de ônibus, ela, executiva de contas de uma agência de publicidade, devem ter se cruzado uma infinidade de vezes na linha Luz – Vila Olímpia em uma seqüência de manhãs empoeiradas da cidade de São Paulo. Ela reparou nele em um dia especialmente depressivo, e achou engraçado o mulato forte, de camisa azul de manga curta, lendo Lunar Park do outro lado da catraca. Achou pitoresco, para dizer o mínimo, e puxou papo, sentindo-se um pouco encabulada.

Ele falava bem, em pouco tempo contou onde morava, há quanto tempo trabalhava ali, que cursara Letras na USP (notou que ela não tirava os olhos da capa do livro), mas que a vida era difícil, ela sabia como era... Não, não sabia, e ele também não imaginava que a morena, cujo pescoço o atraia de uma maneira estranha, do qual ele não conseguia desviar os olhos, iria se tornar parte integrante da vida dele.

As conversas foram se tornando regulares, e ela alterava seu horário para conseguir pegar sempre o ônibus no qual ele estava. Com muito custo, Walter trocou sua folga, antes às terças, para o disputadíssimo domingo, assim não perdia um dia de possibilidade de vê-la. E era um namoro de metades. Ela só o enxergava da cintura para cima, o mesmo ponto de vista dele, a não ser nos raros dias de ônibus vazio. E nada se ia além, pois ele havia percebido a aliança na mão esquerda dela, e não fez questão de esconder a sua.

Tudo mudou em um dia estranho, de extremo calor de final de verão, quando uma frase sem pretensões dela acendeu uma oportunidade na mente dele: “com esse tempo abafado, não sei mais o que vestir!”. “Vem amanhã vestida para mim, morena.”. O tiro certeiro, a cantada quase grossa que poderia ter posto tudo a perder fez o coração de Walter disparar quando Adriana, sempre tão altiva e aparentemente centrada, corou e desviou os olhos, com um sorriso no rosto.

Não vale a pena entrar nos detalhes dos pequenos flertes, frases, ausências e reencontros. O fato é que, no um ano seguinte, se tornaram tão íntimos quanto os amigos de infância e os amantes de longa data podem ser. De certa forma, acharam um no outro o que lhes faltava, mesmo nunca tendo dado falta de algo. Ele, mulherengo assumido (ônibus são lugares propícios ao flerte, acreditem), largou a “vida bandida” e conheceu uma fidelidade inimaginada. Ela descobriu um espaço de sonho, no qual pequenas coisas tinham mágica e os amores das banalidades eram o mínimo a ser esperado. Walter rebolava aqui e ali, inventava horários extra, reuniões de sindicato, necessidades de trabalho fora de hora para estar com sua morena. Sem querer, começou a fazer bicos de tradução (como explicar as horas extras sem o dinheiro respectivo no final do mês para a esposa?). Estava até achando um bom negócio largar a catraca e viver do que havia estudado. Adriana dizia que ele só não descobrira isso antes porque não tentara.

Ela, com tempo livre, horários flexíveis e marido de memória curta, fazia menos malabarismos, mas não dava menos importância aos encontros, ao carinho do cobrador que um dia, ela imaginava, seria professor, doutor em Literatura de Língua Inglesa, quem sabe? E ficava cada vez mais exigente, e ficavam cada vez mais envolvidos. Ele propôs fazer um filho nela e fugir, ela dizia ter uma certa preguiça de mudar seu mundo. Se chamavam melhores amigos, se diziam capazes de tudo para estarem um com o outro, mesmo que só quando desse, pois o pouco que tinham era muito mais que conseguiram arrancar da vida e de seus respectivos parceiros.

Um dia, Walter teve um de seus corriqueiros surtos de solidão (uma das tantas pedras no caminho dos dois) e disse a Adriana que iria terminar com tudo, ir viver sozinho e que se ela quisesse poderia ficar com ele. E assim o fez. Pagou algumas últimas contas (não deixaria sua Irene, companheira de tantos anos e tantos sonhos em uma situação difícil), juntou uma dúzia de livros, meia dúzia de roupas e alugou uma quitinete no Centro. No dia seguinte, feliz, comunicou sua virada de vida a Adriana, que abriu um sorriso largo e quase pulou a catraca para dar um beijo em seu amor.

Mas ainda naquela noite, que não passaram juntos, pois era apenas questão de ela ir para casa, também resolver suas coisas e os dois serem, finalmente, um do outro, o visor do celular de Walter piscou, com uma mensagem que, mesmo curta e simples, iria acordá-lo no meio da noite por algum tempo: “Acho melhor não me procurar, não me ligar, não me escrever mais”. Ele teve um surto, achou que o marido havia pego o celular e feito aquilo, ligou (caixa-postal), deixou recado, tentou encontrá-la, esperou semanas e semanas que ela pegasse o ônibus de novo. Nada. Um dia ligou para o número dela e uma tal Márcia atendeu, dizendo que o celular era novo e que não conhecia nenhuma Adriana.

Ele desistiu, depois de quase desistir da própria vida. Sim, tinha um lado de sua personalidade dramático e exagerado que gostava de cultivar, até conseqüências mórbidas. Depois de quase um ano quase sem trocar palavra com motorista ou passageiros, um dia também não foi trabalhar, e o pessoal da garagem não soube dizer o que houve. Descontou o último salário e sumiu. Adriana continua vivendo sua vida, não precisa mais pedir para amigas atenderem seu celular e dizer que não a conhecem. Casada, se diz feliz a quem perguntar, está grávida de três meses. Espera que seja menino. Vai chamá-lo Walter.


Escrito por rdionisio às 17h11
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Caminho

Eu ando por ruas que já não me pertencem mais/ Foi o cheiro das frutas, das calçadas, dos amores/ Algo obsceno e abjeto cresce dentro de mim/ E das lembranças de infância só restou medo e pesar// O ar das coisas não me pertence mais, e essa sensação de sufocamento me faz acordar no meio da noite/ Despertar de sonhos de um passado que não se concretizou/ Ruminar, madrugada a dentro e o resto do dia o pesadelo auto-imposto do que nunca será/ Queria meu avô aqui...// Principal referência masculina deste filho sem pai, foi cedo demais/ E ainda teimo em achar que devo visitá-lo, apresentá-lo/ Ele, a última pessoa que me fez chorar de saudade, mas cuja campa no cemitério tenho medo de não ser mais capaz de encontrar// Ele, que eu queria ter, mas não ser/ O nordestino calado, sentado a mesa, olhar triste/ Ninguém nunca vai me convencer que não morreu de tristeza// Lá fora garoa, e essas ruas não me pertencem/ Na alegria e na doença, na saúde e na tristeza/ Eu não me pertenço mais.

+ Este texto foi escrito hoje pela manhã, no celular, e é transcrito em sua versão original, sem revisão.

Escrito por rdionisio às 10h47
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Aderbal e Simone

Aderbal era um cafuzo de pouco mais de 17 anos quando chegou a São Paulo. Filho de mãe de sangue índio e pai negro, nasceu em uma cidade desaparecida no sertão de Pernambuco. O lugar ainda existe, na verdade, mas embalado ao sabor de gostos políticos mudou de nome três ou quatro vezes. Ora o avô do governador, ora o bisavô do prefeito. Parece que chamava Felicidade, quando ele ainda corria descalço pela terra batida das ruas de lá. Decidiu migrar com a intenção de trabalhar no cinema. O estalo aconteceu quando, em uma dessas sessões beneficentes em praça pública nos rincões do país, sempre com a devida cobertura jornalística, assistiu a alguns filmes restaurados do Cinema Novo. Que pelo entendido era uma coisa velha, lá da década de 60, filmada toda em preto e branco.

Mais que a tela grande, o som da projeção e todo aquele povo do Sul, o que mais o encantou foi ver nas cenas negros, nordestinos, desdentados como ele. E desta vez, ao contrário das novelas assistidas pela mãe, lá, naqueles filmes, eles eram personagens principais, eram heróis, em alguns casos até conseguiam ser felizes no final.

Aderbal trabalhou de tudo um pouco nos meses seguintes. Capinou, ajudou em feira, dirigiu caminhão de bóia-fria, sem habilitação e apenas dois dias depois de ser apresentado a acelerador e embreagem. Guardou o pouco que pode, represou a saudade da mãe e dos irmão no peito e embarcou para São Paulo. Desaguou na Rodoviária do Tietê, sem saber naquele momento nunca ser possível para ele alcançar seu sonho e brilhar nas telas. De tudo um pouco voltou a fazer, de pedreiro, engraxate, carregador do Mercadão até o auge de sua carreira formal, quando fazia serviço de office-boy para um pequeno escritório de advocacia na região da Sé. E foi um pouco mais lá para baixo, no banheiro público do Anhangabaú, que a vida de Aderbal mudou e, digamos, ele finalmente engatou uma carreira artística.

Wellington era um homossexual mineiro, expulso de casa aos 15 anos pelo pai, católico fervoroso e hipócrita, cheio de amantes que lhe enviavam cartas obscenas, que o menino descobriu um dia e a mãe fingia não ver. Começou a vida como michê na região do Arouche, e após algumas navalhadas, espancamentos, duas balas alojadas no corpo, se tornou uma espécie de Larry Flint dos teatros de pornô hardcore do Centro Velho. Ao ver o rapaz urinando a seu lado, no banheiro, reconheceu seu talento imediatamente. “Se mole era aquilo, duro então...”, revirava os olhos ao contar sobre sua descoberta, antes de dar a sentença: 28 cm de comprimento por 19 cm de circunferência.

E foi assim que Aderbal ganhou a alcunha de O Índio, sempre acompanhado nos cartazes do subtítulo “30 cm de Peroba do Norte”. Sentia-se um pouco incomodado com isso tudo. Não era índio, não vinha do Norte e, principalmente, não tinha 30 cm, mas 28. Dois centímetros não faziam a menor diferença, mas o fato de, mais uma vez, aquilo que possuía parecer insuficiente, mesmo sendo o principal motivo de seu sucesso, não o deixava confortável todas as vezes nas quais entrava na boate e dava de cara com a descrição de suas qualidades.

Mas não era só isso no cartaz. Ao seu lado estava ela, Simone. Nascida no interior do Estado de São Paulo, quase na divisa com o Paraná, veio para São Paulo com o sonho de ficar famosa. Não sabia muito bem com o que, mas entendia ser importante ganhar dinheiro, comprar o que quisesse e ser reconhecida nas ruas. Treinava no bloquinho de anotações do pé-sujo da São João a dar autógrafos. E foi lá que conheceu Aderbal. O negro grande e calado, como ela o definia, chegava todos os dias para almoçar no mesmo horário, e ela sentia os olhos pesados dele em suas costas, em sua nuca e sua bunda cada vez que se virava para buscar o PF que ele devorava segurando a colher com a palma da mão. Um dia, após receber a ordem de despejo da pensão onde dormia, ela puxou assunto com ele, descobriu que morava em uma quitinete ali perto e, depois de uma semana, o conduziu a uma espécie de pedido estranho de casamento com um “vem morar comigo, então”, depois de ela cair em um choro convulsivo ao contar que estava habitando nos fundos do bar e que todos os seus pertences cabiam em uma mala de papelão.

Aderbal nutria uma ternura sufocante por Simone, apesar de ela demonstrar uma clara falta de apreço por ele. Neta de “escravos modernos” italianos, que vieram da Europa para substituir algum avô ou bisavô de Aderbal nas plantações de café, se sentia superior a ele com base em sua pele clara, os olhos verdes e os cabelos loiros e lisos. Ele, de certa forma, dava razão a ela e se achava abençoado por poder tê-la consigo. Sempre voltava da rua com algum mimo, um colar, um vestido, um presente qualquer. Até quando retornou indignado e falando muito mais em dez minutos que no último mês inteiro, esbravejando contra a bicha que o havia abordado no banheiro com uma proposta indecente. Simone pensou diferente, e por meio de algum raciocínio inexplicável, tortuoso, viu ali uma oportunidade nas palavras “produtor artístico” no cartão de Wellington, amassado na palma da mão que Aderbal, que de tanta raiva sequer a abriu e manteve o pedaço de papel prensado e suado entre os dedos durante todo caminho até o apartamento.

E assim nasceu um dos maiores sucessos do teatro pornô de quinta do Centrão: O Índio e A Polaca. Aderbal se sentia incomodado de expor seu amor daquela maneira, mas a vida artística escolhida por eles tinha suas vantagens. Daquela maneira, pelo menos, ele podia tocar Simone. Ela sempre encontrava argumentos para se negar a deitar com ele. Era muito grande, muito bruto, mas normalmente demonstrava mesmo um certo nojo do companheiro, se recusando a fazer sexo se ele não se lavasse, como se ele fosse transmitir alguma doença incurável a ela, e água e sabão resolvessem o problema. A freqüência de uma vez por mês agora se tornara uma maratona de três sessões por noite, de terça a sábado, sempre com casa lotada. Além da exposição da amada, motivo de ciúme, causava uma fisgada no estômago de Aderbal a dúvida se os gemidos e suspiros vindos dos homens se masturbando na platéia escura eram motivados por Simone ou pela visão dos “30 cm de Peroba do Norte”. Também o incomodava um tanto saber que ela, A Polaca (apelido que ele achava desrespeitoso, por ser sinônimo de prostituta, além de mais uma mentira), sua Simone, vez por outra com o argumento de levantar mais algum dinheiro, pagava boquete para o dono do teatro no escritório sujo e mofado escondido nos fundos do prédio.

Mas também o dinheiro era bom, nunca daria para a mansão e o carro importado com os quais Simone sonhava, mas, na cabeça de Aderbal, seria o bastante para um dia comprar alguns palmos de terra no Nordeste e voltar, seu grande amor de braço dado, e criar porcos, vacas, galinhas e filhos ao lado dela. E ainda bancava todos os presentes que ele gostava de dar para a mulher, cada vez mais vaidosa e exibida. O quitinete se tornara um quarto e sala na Ipiranga, e uma cama de casal melhor e maior dava mais conforto para Aderbal e mais espaço para Simone manter uma distância higiênica dele nas noites fora dos palcos.

Numa manhã de domingo Aderbal acordou sozinho. Sem o amor de sua vida e sem uma nota sequer na caixa de sapato escondida sob um piso solto do banheiro. Não gritou, não fez escândalo, não quebrou nada. Cancelou seu “contrato” com Wellington, que esbravejou, ameaçou de morte, quebrou todo o escritório, mas entendeu que seu Índio nunca aceitaria uma outra parceira que não a Simone dele. E os anos se passaram, e de bico em bico Aderbal foi vivendo como um anônimo, mais um, nas ruas da grande metrópole. Dividia um quarto de pensão próximo à Rodoviária do Tietê com mais três migrantes de três cantos diversos do país. Mantinha o hábito de almoçar, sempre no mesmo horário, no mesmo pé-sujo da avenida Cruzeiro do Sul. E foi lá, dia desses, com a boca cheia de feijão, que viu Simone mais uma vez. Não entendeu muito bem, mas, na reportagem da TV, ela recebia um prêmio por ter criado uma espécie de organização para recolher das ruas animais abandonados por seus donos.

O corpo era diferente, peitos maiores de silicone, braços musculosos de malhação, a pele do rosto e os cabelos estavam muito bem cuidados, mas ele reconheceria aquela voz e aqueles olhos em qualquer lugar, mesmo encontrados na TV minúscula pendurada no teto do boteco. E a reportagem se encerrou com a imagem de um beijo de sua Simone no seu então marido, um, se entendeu bem Aderbal, empresário da noite paulistana que ficará milionário com casas noturnas chiques na Zona Sul da cidade. Pela primeira vez em todo esse tempo Aderbal sentiu raiva. Estranhamente se encontrou traído e percebeu a impossibilidade de realização de seu sonho de um dia encontrá-la e fazer nela os filhos que sabia nunca ser capaz de ter com outra. Se sentiu, mais uma vez, insuficiente. E pensou em vingança. Já que ela agora, finalmente, era famosa, dariam ouvidos a ele em um desses programas de fofoca nas tardes da TV, no qual ele mostraria os dois cartazes que guardou de sua época de shows (por saudade dela, por não ter nenhuma outra foto, nem 3x4, do amor de sua vida). Imaginava o escândalo que a apresentadora faria, ao exibir, ele vestido de índio e ela de sinhá, sobre o título “As Taras de Pery e Cessi”. Ou o outro, ela de odalisca e ele de sultão com o texto “1.001 Fodas das Harábias”.

Não fez isso, não conseguiria destruir o sonho dela assim, o motivo dos poucos momentos de brilho nos olhos que Simone tinha enquanto estavam juntos. Em vez, deu mais uma colherada no feijão, agora já frio e mais oleoso que o normal. Nunca conseguiria formular o motivo de sua resignação, mas se falasse mais que “bom dia” e “boa noite” para o porteiro da pensão, e pedisse um “por favor” ou solicitasse um “com licença” a seus companheiros de quarto, poderia explicar que, primeiro, era uma boa pessoa. Apesar de já ter matado dois homens, um para se defender e outro para colocar comida na mesa, se sabia incapaz de fazer maldade deliberadamente para alguém. Não teve berço quando nasceu, e já ouvira várias vezes falar sobre quem tinha ou não berço, apesar de nunca entender isso direito. Mas sabia, do seu jeito, serem sagradas certas coisas aprendidas com sua mãe, nos tempos de sua cidade desaparecida. Nunca mais vira nenhuma das duas.

Mas mais que tudo isso, ele entendia, de uma maneira que nunca seria possível explicar, que, por mais que sejam atribulados e nos matem, um pouco a cada dia (ou talvez inclusive por isso), amores de verdade são para sempre.

+ Este texto nasceu, ou se fortificou, não sei bem mais dizer, a partir desta cena, vista hoje no centro: www.flickr.com/photos/umacamera/2091234444.

Escrito por rdionisio às 11h45
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Vebro intransitivo

Ele encontrou uma menina que era uma flor
Mas nunca entendeu bem o que ela encontrou nele
Ela achou alguém para ouvir, e principalmente falar
Apesar de sempre não achar bem tanta graça assim em si que justificasse tanta atenção
E tudo nela era tão perfeito e tão especial
Que ele lembrou de coisas esquecidas, de outras, algumas, nem nunca lembradas
E ela chamava ele de coisas fofas, e ele até aprendeu a gostar do termo fofo
E ele acreditava que os olhos dela eram mais felizes agora que quando a encontrou
E por mais que tivesse batalhado para achar o que não gostava nela, não conseguiu
Porque ela fazia caras e gestos e ele ficava mais e mais encantado
Pois ela se irritava e brigava por coisas bobas, e às vezes não entendia as piadas dele
O que o fazia rir mais ainda
Porque ele se achava muito esperto, e ela deixava, sabendo quem na verdade era o sabido dali
Coisas que ele achava que estavam perdidas se encontravam nela, e ela fingia descobrir novos mundos em pedaços da pele dele
E foi tanta saudade, tanto encontro, tanta distância que parecia que, mesmo perfeito, nunca nada daria certo
E foi, e é, e eles estão ainda aí, felizes, há mais tempo do que qualquer um apostaria
É possível vê-los em bares, em ruas, em cidades frias distantes
É possível saber deles por amigos que não são em comum, mas nunca o tanto que sabem um do outro, dois grandes amigos, os melhores
Não dá para conjugar o verbo no futuro, além de abril, nem eles sabem desses planos ao certo
Mas têm certeza de uma coisa, foi, é e será, num espaço de mundo que talvez só pertença aos dois, quem sabe?


Escrito por rdionisio às 15h25
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Noite de verão

Subiu as escadas meio correndo, chegou esbaforido
Por alguns instantes tentou sentir o cheiro dela, antes de virar o último lance
Encontrou o lugar vazio, e um bilhete, jogado no chão
“Não me procure mais, isto não faz sentido
Você sabe tão bem quanto eu que não há futuro, que está errado, não vai levar a nada
Carregue com você um beijo, minha lembrança e a saudade
Que como você mesmo diz, o tempo cura, passa”
Leu e releu e não soube bem se o que sentia era tristeza, vazio ou alívio
Desceu os degraus de volta, cigarro entre os dedos, o bilhete amassado na palma da outra mão
Contou cada passo e lembrou de todas as vezes nas quais percorreu aquele caminho
Teve raiva, pensou no beijo, sentiu saudade
E tentou imaginar qual seria o tamanho do tempo para esquecer,
Que futuro distante traria algum tipo de cicatrização para aquela seqüela
Não era a primeira, não seria a última
Adoraria agora poder acuá-la, machucá-la, vê-la ao menos incomodada com tal comparação
Abriu a porta, sem se preocupar, como antes, com os ruídos do outro lado,
A soltou e, ainda contando, no segundo passo, ela atingiu o batente com um estrondo
O barulho o acordou do sono profundo, suado e em sobressalto
Olhou para o lado, ela dormia
Deu um beijo nos seus cabelos, balbuciou algo em seu ouvido, ao que ela sorriu
Virou de lado, dormiu de novo, ouvindo a chuva lá fora
Com o barulho que só é possível agora.


Escrito por rdionisio às 22h39
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Um começo

Dois parágrafos que estão rodando na minha cabeça desde cedo... Já mudaram de forma, foram e voltaram... pode ficar nisto, pode virar outra coisa, enfim:

A nuca de Ana. Ela sempre achou meio estapafúrdio ele dizer que sentia saudade de pescoço. Ele declaradamente também, mas era uma verdade absoluta, sentia uma falta quase física daquela parte do corpo dela. De tocar, beijar, ou apenas segurá-la, sob os cabelos, de olhos fechados. A nuca de Ana foi a última coisa que ele viu, quando ela partiu sem se dar ao trabalho de olhar para trás.

Conhecia muitas coisas dela, mas não saberia colocar agora em ordem o que lhe faria mais falta. Da risada, das pequenas implicâncias, as discussões sobre nada e as divergências de pensamento. Era fácil pensar agora, na verdade, em tudo que irritava, apesar de saber que, até a noite, teria de novo certeza de ser aquela a mulher de sua vida, só qualidades, e ele um bosta que a perdeu por total inaptidão emocional.


Escrito por rdionisio às 13h26
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Samurai

O sonho do candelabro era ser espada. Poderia até ser uma daquelas ridículas imitações de espada japonesa
O que a ele interessava era, sendo metal, na forja ter ganho objetivo e finalidade mais nobres

Passou de mão em mão, entrou e saiu de moda, tornou-se vintage até
Iluminou Natais, encontros românticos, acumulou pó dentro de armários, azinhavrou, voltou ao centro da sala de jantar, entristeceu-se, esqueceu

Albertina, que sonhava muitas coisas, um mês após o divórcio se viu obrigada a trocar a primeira lâmpada de sua vida
A pequena escada de alumínio rangeu, tremeu sob o peso de anos de lamúrias, se desgostou, soltou um pino e desarmou-se

Sem filhos ou alguém por si, a senhora do 206, como era conhecida, foi encontrada uma semana depois, estatelada sobre a mesa de mogno
A causa foi hemorragia interna, e o exato objeto de óbito uma ridícula ponteira de candelabro em forma de espiga de milho


Escrito por rdionisio às 17h20
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Maracatu

Um dia ele se foi. Dizem que escreveu em algum lugar, um bilhete talvez, que iria seguir o maracatu. Dizem... No fundo, desistiu do pote de ração e da tigela de água, foi viver. Não que não o fizesse antes, grande injustiça dizer isso. Só foi ser diferente, talvez fazer diferente, por saber que sempre, por todo sempre, sentiria igual. De muitos não se despediu, para alguns jurou saudades, poucos escutaram sua voz antes da partida, ninguém realmente entende o que se deu. Deve ter dado em alguma ladeira de Olinda ou rua estreita de Recife, para onde sempre disse que iria. Talvez realmente siga algum maracatu imaginário ou real, sobre paralelepípedos de um dia de Carnaval. Enlouqueceu, afirmam. Se libertou?, indagam. Não voltou para contar. Mãe chorosa, mulher inconsolada, amante esquecida, trabalho abandonado, pilhas de papel não dizem mais nada e acumulam pó em gavetas. Cada canto de algo que foi seu acumula um traço de promessa não cumprida. E quem ainda se lembra, ao ouvir uma alfaia, vira a cabeça, espera e sorri, de saudade, de ódio, de ironia, ao ver que não, não será este maracatu que trará ele de volta.

Escrito por rdionisio às 17h29
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Primeira página

O sonho da garrafa de cerveja era ter sido lâmpada,
e mesmo sob o calor, emitir luz, brilhar, iluminar a vida de alguém

No mais, só conseguiu transportar Brahma, Skol, Bohemia, Kaiser e até tubaina
um dia foi preenchida com gasolina, levou uma mordaça de pano na boca, Molotov

E apareceu na primeira página do jornal, brilhando no escudo de um policial
durante a desocupação de um terreno grilado na Zona Sul



Escrito por rdionisio às 22h43
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