Primeira página
O sonho da garrafa de cerveja era ter sido lâmpada, e mesmo sob o calor, emitir luz, brilhar, iluminar a vida de alguém
No mais, só conseguiu transportar Brahma, Skol, Bohemia, Kaiser e até tubaina um dia foi preenchida com gasolina, levou uma mordaça de pano na boca, Molotov
E apareceu na primeira página do jornal, brilhando no escudo de um policial durante a desocupação de um terreno grilado na Zona Sul
Escrito por rdionisio às 23h43
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Novembro
Houve um tempo no qual o que me movia, me fazia acordar e levantar a cada manhã, era uma espécie de revolta, de ódio com o mundo. Se envelhece, e apesar de aqui, do lado oeste do Greenwich, a adolescência parecer não querer ter fim, algo se perde neste caminho sem volta. Neste instante, me sinto cansado de mim, e uma espécie de gosma pastosa, como sangue segundos antes de coagular, corre pelo meu peito. Enburguesei, cansei, vendi meus sonhos por um punhado de conforto... Mas não, é só mais uma reação com engasgos de adolescência.
Nunca vou entender as pessoas com medo do tempo, as plásticas, os anti-rugas, as academias. Os cadáveres em pé andando por aí buscando morrerem de uma forma mais bela. De tudo que sofri, agradeço a cada cicatriz, visível ou não. Cada cabelo branco, cada fio de cabelo a menos, cada ruga na alma e no peito. Houve um tempo no qual o que me movia era o medo. Mas um patamar de certezas das poucas coisas possíveis e cabíveis, uma retenção do horizonte, me fez mais confortável. Comigo, com os meus sonhos.
E, sim, há o imponderável. E tudo que se imaginava nunca mais volta com força, para não mais adormecer. Ou simplesmente morrer em mais um mar de impossibilidades. E os anos passam, e logo é outubro. Mais um Natal, mais uma ceia de celebração da falta de gosto e de tempero das nossas vidas. Da minha vida. Houve um tempo no qual quase nada se movia, mas o que se move hoje guia o trem a um espaço sem solução. E este aperto no peito, e este nó na garganta. E um grito não foi dado, um gesto foi desfeito antes de o primeiro impulso do cérebro chegar às mãos, ou às pernas. Não houve corrida em busca do abraço, não houve braço, nunca há outro.
Cada vez me fecho mais em um simulacro tosco e gasto, como adjetivos, coisas sem sentido, e lamúria de um tempo passado. Memórias, sim, houve um tempo de memórias, e de acreditar ser melhor não reconhecê-las, não voltar a elas. Ou de achar suas possibilidades válidas, seu retorno bem-vindo. Houve um tempo, e há hoje, quando o indefinível me engole e me afoga, sem muita saída. Quando o som das teclas deste computador me distraí, ensurdece e enlouquece. Há hoje, e em breve mais uma segunda, mais uma semana. E, em breve, chega mais um novembro.
Escrito por rdionisio às 00h00
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Distância
Daqui pra lá, Um, dois, caminhamos, Vamos ver para onde se chega, quanto.
Importante estar aqui.
Escrito por rdionisio às 19h09
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Vila Zilda
Ele acordou, coçou os olhos, olhou o rádio relógio. Resmungou algo, tossiu, acendeu um cigarro. Levantou, cambaleou, buscou fixar o horizonte na parede do quarto. Lembrou, ou acreditou lembrar, rememorou flashs da noite anterior. Dançou? Duvidou disto. Bebeu, circulou, falou aqui e ali. Dirigiu para casa, sentiu pesar e pena de si mesmo. Deitou bêbado e sozinho, adormeceu triste como sempre.
Lavou o rosto, escovou os dentes. Trocou de roupa, escolheu uma camiseta velha jogada no chão. Desceu as escadas lentamente, contou os degraus, olhou nos olhos do zelador, deu bom dia, fingiu se importar. Caminhou duas quadras, pediu o café, acendeu o segundo cigarro do dia. Olhou a banca de jornais, leu uma coisa aqui outra ali. Desistiu de se importar.
Retornou sem dar muita atenção, ouviu um pássaro cantar e tentou encontrá-lo no meio das folhagens. Pisou no meio-fio sem prestar muita atenção, invadiu o asfalto. Voa para sempre em algum lugar entre aqui e lugar nenhum, plana em sua última memória diante de um ônibus rumo à Vila Zilda.
Escrito por rdionisio às 18h58
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Apesar de mim
Pares de pernas, de seios, bocas, bundas. Como em uma espécie de açougue afetivo. Sim, houve amores verdadeiros, completos. Não encheram os dedos de uma mão. Uma vida em busca, sem encontro. Do quê, meu deus? Não disto.
E quando menos esperava, o maior erro da minha vida. O mais complicado, o mais delicioso (“O mais complicado, e o mais simples para mim”, Roberto Carlos). E a vida muda, os sonhos mudam, as necessidades. Coisas aqui e ali renascem, morrem, remorrem, remoem. E das partes um todo, acostumando-se a se desacostumar com partes, aprendendo a cuidar do todo.
Quando o adjetivo se torna substantivo, e pouco há para se fazer. Sentir, viver, esperar. Desacostumar à distância. Desaprender a solidão, mesmo sendo ela ainda, por vezes, tão necessária para pensar… Mas e se ainda assim o pensamento está lá? Estar apaixonado, estar amando (vou estar amando você…). E o aperto no peito, e a vontade de chorar.
E saber que o mundo gira, apesar de nós.
Escrito por rdionisio às 18h57
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