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Pó de Sonho
 


Maracatu

Um dia ele se foi. Dizem que escreveu em algum lugar, um bilhete talvez, que iria seguir o maracatu. Dizem... No fundo, desistiu do pote de ração e da tigela de água, foi viver. Não que não o fizesse antes, grande injustiça dizer isso. Só foi ser diferente, talvez fazer diferente, por saber que sempre, por todo sempre, sentiria igual. De muitos não se despediu, para alguns jurou saudades, poucos escutaram sua voz antes da partida, ninguém realmente entende o que se deu. Deve ter dado em alguma ladeira de Olinda ou rua estreita de Recife, para onde sempre disse que iria. Talvez realmente siga algum maracatu imaginário ou real, sobre paralelepípedos de um dia de Carnaval. Enlouqueceu, afirmam. Se libertou?, indagam. Não voltou para contar. Mãe chorosa, mulher inconsolada, amante esquecida, trabalho abandonado, pilhas de papel não dizem mais nada e acumulam pó em gavetas. Cada canto de algo que foi seu acumula um traço de promessa não cumprida. E quem ainda se lembra, ao ouvir uma alfaia, vira a cabeça, espera e sorri, de saudade, de ódio, de ironia, ao ver que não, não será este maracatu que trará ele de volta.

Escrito por rdionisio às 18h29
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