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Aderbal e Simone
Aderbal era um cafuzo de pouco mais de 17 anos quando chegou a São Paulo. Filho de mãe de sangue índio e pai negro, nasceu em uma cidade desaparecida no sertão de Pernambuco. O lugar ainda existe, na verdade, mas embalado ao sabor de gostos políticos mudou de nome três ou quatro vezes. Ora o avô do governador, ora o bisavô do prefeito. Parece que chamava Felicidade, quando ele ainda corria descalço pela terra batida das ruas de lá. Decidiu migrar com a intenção de trabalhar no cinema. O estalo aconteceu quando, em uma dessas sessões beneficentes em praça pública nos rincões do país, sempre com a devida cobertura jornalística, assistiu a alguns filmes restaurados do Cinema Novo. Que pelo entendido era uma coisa velha, lá da década de 60, filmada toda em preto e branco.
Mais que a tela grande, o som da projeção e todo aquele povo do Sul, o que mais o encantou foi ver nas cenas negros, nordestinos, desdentados como ele. E desta vez, ao contrário das novelas assistidas pela mãe, lá, naqueles filmes, eles eram personagens principais, eram heróis, em alguns casos até conseguiam ser felizes no final.
Aderbal trabalhou de tudo um pouco nos meses seguintes. Capinou, ajudou em feira, dirigiu caminhão de bóia-fria, sem habilitação e apenas dois dias depois de ser apresentado a acelerador e embreagem. Guardou o pouco que pode, represou a saudade da mãe e dos irmão no peito e embarcou para São Paulo. Desaguou na Rodoviária do Tietê, sem saber naquele momento nunca ser possível para ele alcançar seu sonho e brilhar nas telas. De tudo um pouco voltou a fazer, de pedreiro, engraxate, carregador do Mercadão até o auge de sua carreira formal, quando fazia serviço de office-boy para um pequeno escritório de advocacia na região da Sé. E foi um pouco mais lá para baixo, no banheiro público do Anhangabaú, que a vida de Aderbal mudou e, digamos, ele finalmente engatou uma carreira artística.
Wellington era um homossexual mineiro, expulso de casa aos 15 anos pelo pai, católico fervoroso e hipócrita, cheio de amantes que lhe enviavam cartas obscenas, que o menino descobriu um dia e a mãe fingia não ver. Começou a vida como michê na região do Arouche, e após algumas navalhadas, espancamentos, duas balas alojadas no corpo, se tornou uma espécie de Larry Flint dos teatros de pornô hardcore do Centro Velho. Ao ver o rapaz urinando a seu lado, no banheiro, reconheceu seu talento imediatamente. “Se mole era aquilo, duro então...”, revirava os olhos ao contar sobre sua descoberta, antes de dar a sentença: 28 cm de comprimento por 19 cm de circunferência.
E foi assim que Aderbal ganhou a alcunha de O Índio, sempre acompanhado nos cartazes do subtítulo “30 cm de Peroba do Norte”. Sentia-se um pouco incomodado com isso tudo. Não era índio, não vinha do Norte e, principalmente, não tinha 30 cm, mas 28. Dois centímetros não faziam a menor diferença, mas o fato de, mais uma vez, aquilo que possuía parecer insuficiente, mesmo sendo o principal motivo de seu sucesso, não o deixava confortável todas as vezes nas quais entrava na boate e dava de cara com a descrição de suas qualidades.
Mas não era só isso no cartaz. Ao seu lado estava ela, Simone. Nascida no interior do Estado de São Paulo, quase na divisa com o Paraná, veio para São Paulo com o sonho de ficar famosa. Não sabia muito bem com o que, mas entendia ser importante ganhar dinheiro, comprar o que quisesse e ser reconhecida nas ruas. Treinava no bloquinho de anotações do pé-sujo da São João a dar autógrafos. E foi lá que conheceu Aderbal. O negro grande e calado, como ela o definia, chegava todos os dias para almoçar no mesmo horário, e ela sentia os olhos pesados dele em suas costas, em sua nuca e sua bunda cada vez que se virava para buscar o PF que ele devorava segurando a colher com a palma da mão. Um dia, após receber a ordem de despejo da pensão onde dormia, ela puxou assunto com ele, descobriu que morava em uma quitinete ali perto e, depois de uma semana, o conduziu a uma espécie de pedido estranho de casamento com um “vem morar comigo, então”, depois de ela cair em um choro convulsivo ao contar que estava habitando nos fundos do bar e que todos os seus pertences cabiam em uma mala de papelão.
Aderbal nutria uma ternura sufocante por Simone, apesar de ela demonstrar uma clara falta de apreço por ele. Neta de “escravos modernos” italianos, que vieram da Europa para substituir algum avô ou bisavô de Aderbal nas plantações de café, se sentia superior a ele com base em sua pele clara, os olhos verdes e os cabelos loiros e lisos. Ele, de certa forma, dava razão a ela e se achava abençoado por poder tê-la consigo. Sempre voltava da rua com algum mimo, um colar, um vestido, um presente qualquer. Até quando retornou indignado e falando muito mais em dez minutos que no último mês inteiro, esbravejando contra a bicha que o havia abordado no banheiro com uma proposta indecente. Simone pensou diferente, e por meio de algum raciocínio inexplicável, tortuoso, viu ali uma oportunidade nas palavras “produtor artístico” no cartão de Wellington, amassado na palma da mão que Aderbal, que de tanta raiva sequer a abriu e manteve o pedaço de papel prensado e suado entre os dedos durante todo caminho até o apartamento.
E assim nasceu um dos maiores sucessos do teatro pornô de quinta do Centrão: O Índio e A Polaca. Aderbal se sentia incomodado de expor seu amor daquela maneira, mas a vida artística escolhida por eles tinha suas vantagens. Daquela maneira, pelo menos, ele podia tocar Simone. Ela sempre encontrava argumentos para se negar a deitar com ele. Era muito grande, muito bruto, mas normalmente demonstrava mesmo um certo nojo do companheiro, se recusando a fazer sexo se ele não se lavasse, como se ele fosse transmitir alguma doença incurável a ela, e água e sabão resolvessem o problema. A freqüência de uma vez por mês agora se tornara uma maratona de três sessões por noite, de terça a sábado, sempre com casa lotada. Além da exposição da amada, motivo de ciúme, causava uma fisgada no estômago de Aderbal a dúvida se os gemidos e suspiros vindos dos homens se masturbando na platéia escura eram motivados por Simone ou pela visão dos “30 cm de Peroba do Norte”. Também o incomodava um tanto saber que ela, A Polaca (apelido que ele achava desrespeitoso, por ser sinônimo de prostituta, além de mais uma mentira), sua Simone, vez por outra com o argumento de levantar mais algum dinheiro, pagava boquete para o dono do teatro no escritório sujo e mofado escondido nos fundos do prédio.
Mas também o dinheiro era bom, nunca daria para a mansão e o carro importado com os quais Simone sonhava, mas, na cabeça de Aderbal, seria o bastante para um dia comprar alguns palmos de terra no Nordeste e voltar, seu grande amor de braço dado, e criar porcos, vacas, galinhas e filhos ao lado dela. E ainda bancava todos os presentes que ele gostava de dar para a mulher, cada vez mais vaidosa e exibida. O quitinete se tornara um quarto e sala na Ipiranga, e uma cama de casal melhor e maior dava mais conforto para Aderbal e mais espaço para Simone manter uma distância higiênica dele nas noites fora dos palcos.
Numa manhã de domingo Aderbal acordou sozinho. Sem o amor de sua vida e sem uma nota sequer na caixa de sapato escondida sob um piso solto do banheiro. Não gritou, não fez escândalo, não quebrou nada. Cancelou seu “contrato” com Wellington, que esbravejou, ameaçou de morte, quebrou todo o escritório, mas entendeu que seu Índio nunca aceitaria uma outra parceira que não a Simone dele. E os anos se passaram, e de bico em bico Aderbal foi vivendo como um anônimo, mais um, nas ruas da grande metrópole. Dividia um quarto de pensão próximo à Rodoviária do Tietê com mais três migrantes de três cantos diversos do país. Mantinha o hábito de almoçar, sempre no mesmo horário, no mesmo pé-sujo da avenida Cruzeiro do Sul. E foi lá, dia desses, com a boca cheia de feijão, que viu Simone mais uma vez. Não entendeu muito bem, mas, na reportagem da TV, ela recebia um prêmio por ter criado uma espécie de organização para recolher das ruas animais abandonados por seus donos.
O corpo era diferente, peitos maiores de silicone, braços musculosos de malhação, a pele do rosto e os cabelos estavam muito bem cuidados, mas ele reconheceria aquela voz e aqueles olhos em qualquer lugar, mesmo encontrados na TV minúscula pendurada no teto do boteco. E a reportagem se encerrou com a imagem de um beijo de sua Simone no seu então marido, um, se entendeu bem Aderbal, empresário da noite paulistana que ficará milionário com casas noturnas chiques na Zona Sul da cidade. Pela primeira vez em todo esse tempo Aderbal sentiu raiva. Estranhamente se encontrou traído e percebeu a impossibilidade de realização de seu sonho de um dia encontrá-la e fazer nela os filhos que sabia nunca ser capaz de ter com outra. Se sentiu, mais uma vez, insuficiente. E pensou em vingança. Já que ela agora, finalmente, era famosa, dariam ouvidos a ele em um desses programas de fofoca nas tardes da TV, no qual ele mostraria os dois cartazes que guardou de sua época de shows (por saudade dela, por não ter nenhuma outra foto, nem 3x4, do amor de sua vida). Imaginava o escândalo que a apresentadora faria, ao exibir, ele vestido de índio e ela de sinhá, sobre o título “As Taras de Pery e Cessi”. Ou o outro, ela de odalisca e ele de sultão com o texto “1.001 Fodas das Harábias”.
Não fez isso, não conseguiria destruir o sonho dela assim, o motivo dos poucos momentos de brilho nos olhos que Simone tinha enquanto estavam juntos. Em vez, deu mais uma colherada no feijão, agora já frio e mais oleoso que o normal. Nunca conseguiria formular o motivo de sua resignação, mas se falasse mais que “bom dia” e “boa noite” para o porteiro da pensão, e pedisse um “por favor” ou solicitasse um “com licença” a seus companheiros de quarto, poderia explicar que, primeiro, era uma boa pessoa. Apesar de já ter matado dois homens, um para se defender e outro para colocar comida na mesa, se sabia incapaz de fazer maldade deliberadamente para alguém. Não teve berço quando nasceu, e já ouvira várias vezes falar sobre quem tinha ou não berço, apesar de nunca entender isso direito. Mas sabia, do seu jeito, serem sagradas certas coisas aprendidas com sua mãe, nos tempos de sua cidade desaparecida. Nunca mais vira nenhuma das duas.
Mas mais que tudo isso, ele entendia, de uma maneira que nunca seria possível explicar, que, por mais que sejam atribulados e nos matem, um pouco a cada dia (ou talvez inclusive por isso), amores de verdade são para sempre.
+ Este texto nasceu, ou se fortificou, não sei bem mais dizer, a partir desta cena, vista hoje no centro: www.flickr.com/photos/umacamera/2091234444.
Escrito por rdionisio às 12h45
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