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Pó de Sonho
 


Walter e Adriana

Walter e Adriana se conheceram quase que por acaso. Ele, cobrador de ônibus, ela, executiva de contas de uma agência de publicidade, devem ter se cruzado uma infinidade de vezes na linha Luz – Vila Olímpia em uma seqüência de manhãs empoeiradas da cidade de São Paulo. Ela reparou nele em um dia especialmente depressivo, e achou engraçado o mulato forte, de camisa azul de manga curta, lendo Lunar Park do outro lado da catraca. Achou pitoresco, para dizer o mínimo, e puxou papo, sentindo-se um pouco encabulada.

Ele falava bem, em pouco tempo contou onde morava, há quanto tempo trabalhava ali, que cursara Letras na USP (notou que ela não tirava os olhos da capa do livro), mas que a vida era difícil, ela sabia como era... Não, não sabia, e ele também não imaginava que a morena, cujo pescoço o atraia de uma maneira estranha, do qual ele não conseguia desviar os olhos, iria se tornar parte integrante da vida dele.

As conversas foram se tornando regulares, e ela alterava seu horário para conseguir pegar sempre o ônibus no qual ele estava. Com muito custo, Walter trocou sua folga, antes às terças, para o disputadíssimo domingo, assim não perdia um dia de possibilidade de vê-la. E era um namoro de metades. Ela só o enxergava da cintura para cima, o mesmo ponto de vista dele, a não ser nos raros dias de ônibus vazio. E nada se ia além, pois ele havia percebido a aliança na mão esquerda dela, e não fez questão de esconder a sua.

Tudo mudou em um dia estranho, de extremo calor de final de verão, quando uma frase sem pretensões dela acendeu uma oportunidade na mente dele: “com esse tempo abafado, não sei mais o que vestir!”. “Vem amanhã vestida para mim, morena.”. O tiro certeiro, a cantada quase grossa que poderia ter posto tudo a perder fez o coração de Walter disparar quando Adriana, sempre tão altiva e aparentemente centrada, corou e desviou os olhos, com um sorriso no rosto.

Não vale a pena entrar nos detalhes dos pequenos flertes, frases, ausências e reencontros. O fato é que, no um ano seguinte, se tornaram tão íntimos quanto os amigos de infância e os amantes de longa data podem ser. De certa forma, acharam um no outro o que lhes faltava, mesmo nunca tendo dado falta de algo. Ele, mulherengo assumido (ônibus são lugares propícios ao flerte, acreditem), largou a “vida bandida” e conheceu uma fidelidade inimaginada. Ela descobriu um espaço de sonho, no qual pequenas coisas tinham mágica e os amores das banalidades eram o mínimo a ser esperado. Walter rebolava aqui e ali, inventava horários extra, reuniões de sindicato, necessidades de trabalho fora de hora para estar com sua morena. Sem querer, começou a fazer bicos de tradução (como explicar as horas extras sem o dinheiro respectivo no final do mês para a esposa?). Estava até achando um bom negócio largar a catraca e viver do que havia estudado. Adriana dizia que ele só não descobrira isso antes porque não tentara.

Ela, com tempo livre, horários flexíveis e marido de memória curta, fazia menos malabarismos, mas não dava menos importância aos encontros, ao carinho do cobrador que um dia, ela imaginava, seria professor, doutor em Literatura de Língua Inglesa, quem sabe? E ficava cada vez mais exigente, e ficavam cada vez mais envolvidos. Ele propôs fazer um filho nela e fugir, ela dizia ter uma certa preguiça de mudar seu mundo. Se chamavam melhores amigos, se diziam capazes de tudo para estarem um com o outro, mesmo que só quando desse, pois o pouco que tinham era muito mais que conseguiram arrancar da vida e de seus respectivos parceiros.

Um dia, Walter teve um de seus corriqueiros surtos de solidão (uma das tantas pedras no caminho dos dois) e disse a Adriana que iria terminar com tudo, ir viver sozinho e que se ela quisesse poderia ficar com ele. E assim o fez. Pagou algumas últimas contas (não deixaria sua Irene, companheira de tantos anos e tantos sonhos em uma situação difícil), juntou uma dúzia de livros, meia dúzia de roupas e alugou uma quitinete no Centro. No dia seguinte, feliz, comunicou sua virada de vida a Adriana, que abriu um sorriso largo e quase pulou a catraca para dar um beijo em seu amor.

Mas ainda naquela noite, que não passaram juntos, pois era apenas questão de ela ir para casa, também resolver suas coisas e os dois serem, finalmente, um do outro, o visor do celular de Walter piscou, com uma mensagem que, mesmo curta e simples, iria acordá-lo no meio da noite por algum tempo: “Acho melhor não me procurar, não me ligar, não me escrever mais”. Ele teve um surto, achou que o marido havia pego o celular e feito aquilo, ligou (caixa-postal), deixou recado, tentou encontrá-la, esperou semanas e semanas que ela pegasse o ônibus de novo. Nada. Um dia ligou para o número dela e uma tal Márcia atendeu, dizendo que o celular era novo e que não conhecia nenhuma Adriana.

Ele desistiu, depois de quase desistir da própria vida. Sim, tinha um lado de sua personalidade dramático e exagerado que gostava de cultivar, até conseqüências mórbidas. Depois de quase um ano quase sem trocar palavra com motorista ou passageiros, um dia também não foi trabalhar, e o pessoal da garagem não soube dizer o que houve. Descontou o último salário e sumiu. Adriana continua vivendo sua vida, não precisa mais pedir para amigas atenderem seu celular e dizer que não a conhecem. Casada, se diz feliz a quem perguntar, está grávida de três meses. Espera que seja menino. Vai chamá-lo Walter.


Escrito por rdionisio às 18h11
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