Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 Allan Sieber
 Haja Saco
 Sulfúrica
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




Pó de Sonho
 


Ana e Pedro

O gosto de sangue e os dentes parecendo balançar dentro da boca lembraram de alguma forma que ele estava vivo. Pedro apoiou as palmas das mãos no cimento sujo da calçada e tentou levantar, mas sentiu o bico da bota bater contra seu peito e teve certeza que mais alguma costela tinha ido para o espaço. Apesar disso, o impacto do chute deu a ele impulso para, cambaleante, ficar em pé e virar de frente para o agressor. Colocou a mão direita retalhada diante do rosto, para tentar se proteger, enquanto a esquerda tateava a parede e procurava, ao mesmo tempo, dar apoio e buscar algo, um cabo de vassoura, uma pedra solta, para atacar de volta. Confuso, sentiu um gancho de esquerda no fígado. Dobrou ao meio mais uma vez e a última coisa que viu antes de ir ao chão de novo foi crescer, diante de seu rosto, um joelho vestido em um macacão emborrachado de motoqueiro. Tinha um estranho sorriso no rosto.

Pedro nunca havia entendido o que vira em Ana. Era mais uma. Um corpo, algo passando diante dos olhos ávidos dele e de tantos outros. Mas uma espécie de desejo animal subia de sua barriga, tomava o peito e fazia os ouvidos quase explodirem com o som da circulação nas têmporas. Tentava mensurar e nomear aquilo enquanto pensava em maneiras de se aproximar dela, sem nunca achar algo que considerasse conveniente. Uma vez, em uma abordagem idiota de mesa de bar, ao notar a aliança na mão esquerda, trocou as primeiras palavras.

- Você é casada?
- De véu, grinalda e igreja!

O tom agressivo pediu um gole de cerveja, mais nenhuma palavra pelo resto da noite e um certo sentimento de frustração no caminho para casa.

Pedro não lembrava agora direito como começou, só sentia o ombro direito em chamas. Sabia que estava saído com os amigos para o boteco, não ouviu ou viu nada, só sentiu uma pancada com algo pesado e metálico nas costas. Imaginava que seu braço não desprendeu do resto do corpo por sorte, ou ao menos era essa a sensação. Cambaleou, se virou e teve tempo apenas de desviar do capacete arremessado em sua direção. Lembrou de ter feito algo parecido há alguns anos, mas era um Carnaval, a cidade, Recife, e o objeto atirado contra seu rosto, uma garrafa de cerveja. Daquela vez, deixou por isso, até porque eram cinco ou seis caras, um deles havia levado seu relógio. Agora não tinha como fugir, e sabia bem qual o motivo daquilo tudo, já esperava algo assim.

Ana nunca havia reparado em Pedro. E ele fazia questão, para uma certa irritação dela, de lembrar disso sempre que podia. Ela não lembrava da história da aliança, de ele ter tentado adicioná-la no Orkut, de uma maneira geral da existência do rapaz moreno, de óculos e cara séria. Por um bom tempo Pedro também fora apenas uma diversão, mais um galãzinho babaca com cantadas previsíveis e uma insistência normal de quem quer algo além daquilo que declara. Não foi o primeiro, nem seria o último. E havia sempre uma certa graça naquele jogo de dar esperanças, dar corda, oferecer ar, só para, no limite da sanidade alheia, apertar o nó que ata o pescoço do futuro afogado a uma pedra de 100 quilos de desprezo.

Em sua mente, Pedro já havia decorado todos os contra-golpes: desviar da direita, aplicar uma cotovelada seguida por uma cabeçada. Ver o sangue jorrar do corte no nariz do adversário, seus olhos de terror. Só esqueceu que há pelo menos 16 anos não brigava de soco com ninguém, há 14 fumava um maço de cigarros por dia, há dez não fazia nenhum exercício físico regular. Os movimentos eram lentos, pesados, os socos não atingiram nada além de ar. Enquanto isso sua cabeça foi massacrada primeiro pela esquerda, depois pela direita. Os óculos voaram depois do terceiro golpe (em sua imaginação conseguia tirá-los e preservá-los em um canto de calçada, junto com a mochila e a camisa, agora respingada de vermelho). Sentiu as pernas bambearem ao mesmo tempo em que uma canelada atingiu seu baço, que sem sombra de dúvidas se rompeu. Arqueou pela primeira vez, sentiu o impacto de um antebraço na nuca e foi ao chão.

Estava acostumado a jogos de gato e rato, a pequenas artimanhas de conquista e tinha como uma certa máxima que quem dá corda quer assunto. E munido dessa certeza, Pedro insistia, pela milésima vez, em um esquema que conhecia bem e no qual se sentia mestre. Mas algo lhe dizia haver mudanças de rumo naquela prosa. Os frios na barriga aumentavam, e um tremor descontrolado, quase parksoniano, conhecido apenas dos tempos de adolescência, tomava conta de todo seu corpo quando tomava Ana em seus braços. Penou em se afastar dela, chegou a fazê-lo, a cancelar a partida e decidir perder por WO. Não conseguiu. E se viu um dia, sob uma garoa fina, confessando estar apaixonado. E sabendo que dali não havia mais volta.

A sola da bota se chocou uma, duas, três vezes contra seu rosto, fazendo o crânio ricochetear contra o chão. Conseguiu rolar, agarrar o pé de apoio do agressor e desequilibrá-lo. Moveu-se na ridícula posição de gatinhas, tentando fugir. Pensou por um instante em onde estavam as pessoas que o acompanhavam, se ninguém iria separar, parar com aquilo. Não ouvia nada, só sentia algo viscoso se desprender de dentro de seus ouvidos. E também uma nova solada de bota, agora na altura da bacia, atirando seu peito contra o chão. Dois, três chutes da altura das costelas e um som, vindo de dentro, de ossos partindo. Sorriu, sentindo o gosto de sangue na boca, ao ver o brilho metálico a alguns palmos da sua cabeça e entender porque todos haviam se afastado. Precisava levantar, encontra algo, uma cabo de vassoura, uma pedra solta para se defender.

Ana não sabia dizer quando fora, mas se rendeu, se entregou e transformou a paixão de Pedro em sua também. Conseguiu inventar histórias para si e para o mundo do quanto consigo era diferente, e o quanto aquele homem fechado e promíscuo era um menino trêmulo com ela. Tornaram-se amantes, confidentes, amigos, não exatamente nessa ordem. E também fora de hora ou de script, Ana resolveu viver sua vida ao lado dele. Sim, não iria ser fácil, era jogar toda uma vida fora e começar de novo. Acreditava que valeria a pena. Numa noite quente de domingo, comunicou a decisão em casa, na segunda teria uma viagem de trabalho, e na sexta, ao voltar, queria encontrar a casa vazia de Ugo, seu marido e primeiro namorado. Ele foi compreensivo, como ela esperava que fosse. Sensível, chorou, soluçou a noite toda, pediu para ficar. Irredutível em sua decisão, Ana dormiu tranqüila, certa de ter feito o que devia.

Pedro sorriu por saber que, depois de muito tempo de uma vida sem sal, sem rumo, sem medo de morrer, finalmente havia achado um motivo para tentar continuar respirando. E também por lembrar da reação de Ana a uma de sua piadas fora de hora.

- Seu marido anda armado? Se não, eu resolvo.

Ela não respondeu, ficou séria e puxou outra conversa. Não houve cabo de vassoura ou pedra, existiu outro tombo e o gosto de sangue se misturou ao de lama da calçada. A língua ainda tateou a gengiva, procurando dois dentes que não estavam mais lá. Pedro ouviu algum xingamento o qual não entendeu. Com o canto do olho viu o objeto brilhante se aproximar de sua têmpora direita, ouviu um clique e um estrondo.

Ugo, na verdade se chamava Demóstenes. Escolheu sem gosto o novo nome por apenas ser mais curto. Nascido e criado em uma cidade do interior do Mato Grosso do Sul, cresceu com cavalos, bois e o contato com a terra. Em região de fronteira, ganhava a vida com pequenos bicos, doma de animais e teve de fugir, após matar um homem em uma briga de bar. Havia dormido com a mulher do morto, apenas mais uma das traições que acumularia em sua carreira, com a diferença que desta vez era matar ou morrer. Por isso mudou de nome, por isso escolheu uma cidade da Grande São Paulo onde podia ser mais um. Tentou ser respeitável, freqüentar a igreja, conhecer uma vida nova. Quando viu Ana sabia que encontrara ali seu destino, na menina carola recém-saída da adolescência. Ele, já além dos 20 anos, não viu dificuldade em conquistá-la, em convencê-la, em montar a aparência de uma pessoa respeitável.

Mas ainda sentia falta de quando se parecia mais com bicho que com gente, e a seu modo exercitava isso, em pequenas escapadas, mentiras, no prazer em ser, intimamente, o contrário daquilo que demonstrava ao mundo. Comprou uma moto, e brincava de montaria. Fazia os desejos de Ana, para justificar cada uma de sua falhas de caráter. Dava desculpas sem sentido e fugia o quanto podia das vontade de viagem da mulher para a região na qual crescera. Da antiga vida, não conseguira guardar a cela, da qual Ana o fez se livrar com o argumento de que ocupava muito espaço. Manteve apenas uma bota de montaria, um par de esporas e o velho 38 cromado, única herança deixada por seu pai.


Escrito por rdionisio às 21h13
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]